Cultura de ciclo curto ganha espaço como alternativa à madeira e atende demanda crescente das usinas de etanol de milho.
A expansão acelerada das usinas de etanol de milho no Centro-Oeste brasileiro trouxe um desafio inesperado: de onde virá a energia para alimentar essa nova indústria? A resposta pode estar em uma planta de ciclo rápido que promete revolucionar o abastecimento de biomassa energética na região.
Eduardo Dal Forno, engenheiro agrônomo, especialista em produção de sementes e responsável técnico por campos de produção de sementes licenciadas da Embrapa, traz informações precisas sobre este novo nicho que já é realidade no Mato Grosso. “O sorgo biomassa, especialmente a variedade BRS 716, vem ganhando protagonismo como alternativa complementar ao eucalipto, tradicionalmente usado para geração de calor e vapor industrial. Com produtividade de 30 toneladas de biomassa seca por hectare em apenas cinco meses, a cultura representa uma solução ágil para um mercado que não pode esperar”, relata o engenheiro.

A pressão do etanol de milho
Estados como Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul assistiram nos últimos anos a uma verdadeira corrida pelo etanol de milho. As novas plantas industriais operam ininterruptamente e dependem de grandes volumes de energia térmica. O resultado? Uma competição acirrada por madeira energética que expôs a fragilidade de depender de uma única fonte.
“O eucalipto continua sendo fundamental, mas seu ciclo de cinco anos entre plantio e colheita não oferece a flexibilidade que a indústria precisa hoje”, enfatiza Eduardo. A silvicultura brasileira é eficiente, mas em um cenário de crescimento industrial acelerado, a diversificação tornou-se questão de estratégia.
É aqui que o sorgo biomassa entra em cena. Desenvolvido pela Embrapa e produzido comercialmente pela Sementes Santo Isidoro, em Lucas do Rio Verde, o BRS 716 completa seu ciclo em aproximadamente 150 dias. Isso significa que o produtor pode plantar, colher e entregar biomassa para a indústria em menos de seis meses.
Citação em destaque:

“O eucalipto continua sendo fundamental, mas seu ciclo de cinco anos entre plantio e colheita não oferece a flexibilidade que a indústria precisa hoje. A silvicultura brasileira é eficiente, mas em um cenário de crescimento industrial acelerado, a diversificação tornou-se questão de estratégia.”
Eduardo Dal Forno

“É como ter uma usina móvel de energia. Podemos plantar perto da indústria, reduzir custos logísticos e responder rapidamente às demandas do mercado.”
Eduardo Dal Forno
A agilidade se traduz em vantagens práticas. Diferentemente de uma floresta plantada, que permanece fixa em uma área por anos, o sorgo pode ser cultivado onde for mais conveniente a cada safra. “É como ter uma usina móvel de energia”, compara o engenheiro. “Podemos plantar perto da indústria, reduzir custos logísticos e responder rapidamente às demandas do mercado”, explica Eduardo.
Especialistas são unânimes: o sorgo não veio para substituir o eucalipto, mas para ampliar o portfólio energético das indústrias. Enquanto a madeira oferece densidade energética superior e sistema produtivo consolidado, o sorgo traz velocidade e flexibilidade operacional.
A combinação das duas fontes pode ser a chave para garantir segurança energética em regiões de crescimento industrial acelerado. Com o Centro-Oeste consolidando-se como polo de bioindústrias, essa diversificação deixa de ser opcional para tornar-se estratégica.
Adaptação regional
O BRS 716 apresenta características que o tornam particularmente adequado ao Centro-Oeste: porte alto, vigor vegetativo e excelente adaptação às condições climáticas da região. Sua estabilidade produtiva tem atraído tanto produtores rurais quanto indústrias em busca de alternativas ao modelo tradicional.
Para o agricultor, representa uma oportunidade de diversificação de renda. Para a indústria, uma solução para mitigar riscos de desabastecimento. Para o setor energético, um novo capítulo na história da biomassa brasileira.

Com a transição energética em curso e pressão crescente por redução de emissões, fontes renováveis como a biomassa ganham relevância estratégica. O sorgo biomassa representa não apenas uma solução técnica, mas uma mudança de paradigma: a indústria brasileira descobre que velocidade e flexibilidade podem ser tão valiosas quanto escala e densidade energética.
Se a floresta simboliza a força da permanência, o sorgo representa a força da adaptabilidade — característica cada vez mais essencial em um cenário de transformações aceleradas.
A produção de sorgo biomassa está concentrada principalmente em Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul, regiões que concentram as maiores plantas de etanol de milho do país.



